Autor: Renato Barros
FDC promove diálogo internacional sobre agricultura tropical regenerativa durante a Semana do Clima de Nova Iorque de 2026
Realizada em parceria com a BrazilFoundation, mesa-redonda reuniu representantes da ciência, do setor produtivo, das finanças e da filantropia para discutir caminhos de transição regenerativa e aumento de escala.
Em 24 de setembro, a Fundação Dom Cabral (FDC), por meio do FDC Agroambiental, realizou, em parceria com a BrazilFoundation, a High-Level Leadership Roundtable for Tropical Agriculture (Mesa de Discussões de Alto Nível para Agricultura Regenerativa). Promovido no escritório da BrazilFoundation, em Nova York, durante a semana do Clima de 2026, o encontro reuniu lideranças empresariais, pesquisadores, investidores, representantes de organizações filantrópicas e membros da sociedade civil.
A mesa-redonda teve como propósito discutir como a agricultura tropical pode contribuir para uma trajetória de desenvolvimento mais resiliente, próspera e regenerativa diante das mudanças climáticas. Em formato interativo, o encontro estimulou a troca de experiências e a construção de caminhos capazes de aproximar ciência, mercado, financiamento e atuação comunitária.

Na abertura, Will Anders, da BrazilFoundation, destacou a importância da colaboração internacional e do aprendizado entre diferentes setores. Na sequência, Daniel Parreiras, diretor do FDC Agroambiental, apresentou a atuação do centro. A partir desse momento foram iniciadas as discussões sobre a Agricultura Regenerativa Tropical e sua importância para a metas climáticas globais.
Um dos principais consensos do encontro foi a necessidade de integrar as agendas da agricultura e do meio ambiente. Os participantes ressaltaram que produtividade, sustentabilidade e competitividade não devem ser tratadas como objetivos isolados, mas como dimensões complementares de uma mesma estratégia. Para isso, a transição dos sistemas produtivos precisa contar com regras estáveis, incentivos econômicos adequados e mecanismos de compartilhamento de riscos com os produtores.
Nesse contexto, Ludmila Rattis, cientista do clima que lidera a construção do Índice de Agricultura Regenerativa Tropical junto à FDC, apresentou a iniciativa desenvolvida por pesquisadores brasileiros e parceiros institucionais para avaliar a agricultura regenerativa a partir das especificidades dos trópicos. O índice considera aspectos ligados à qualidade do solo, à disponibilidade e à estabilidade da água, à biodiversidade, à paisagem, à governança e à viabilidade econômica das propriedades.
A discussão evidenciou que métricas científicas consistentes são essenciais para orientar decisões de produtores, empresas e instituições financeiras. Também foi destacada a necessidade de superar a escassez de dados, ampliar a capacidade de análise e avançar na padronização de indicadores que permitam incorporar a resiliência climática à avaliação de riscos e à concessão de crédito rural.
Representantes do setor privado e financeiro defenderam que os incentivos sejam orientados por resultados, como melhoria da saúde do solo, conservação da biodiversidade e maior resiliência dos sistemas produtivos, evitando a adoção de modelos excessivamente prescritivos. A perspectiva é que produtores com melhores resultados socioambientais possam ter seu menor perfil de risco reconhecido por bancos, seguradoras, investidores e compradores.
Outro tema central foi o papel da filantropia e das finanças combinadas na redução dos riscos da transição. A associação entre crédito, assistência técnica e mercados estáveis foi apontada como uma das estratégias mais promissoras para ampliar o acesso de pequenos produtores ao financiamento. Programas de compras públicas, como os destinados à alimentação escolar, também foram mencionados como instrumentos capazes de gerar demanda previsível, fortalecer economias locais e aproximar produtores dos consumidores.
A construção de cadeias da bioeconomia foi ilustrada por experiências relacionadas ao aproveitamento integral do babaçu no Maranhão. O processamento do fruto pode gerar óleo, ração, biocarvão, carvão ativado e bioaditivos capazes de reduzir o consumo de diesel, ampliando as fontes de receita e agregando valor à produção local. Outros casos apresentados demonstraram o potencial da restauração produtiva, dos sistemas silvipastoris e do cultivo de espécies nativas para combinar conservação ambiental, recuperação da biodiversidade e geração de renda.
Ao final, os participantes reforçaram que a ampliação da agricultura regenerativa tropical depende da articulação entre instituições de pesquisa, empresas, agentes financeiros, organizações filantrópicas, governos e comunidades. Confiança, assistência técnica, capital paciente, infraestrutura e métricas adaptadas à realidade tropical foram apontadas como condições fundamentais para transformar iniciativas locais em soluções de maior escala.
