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Espaço de Diálogo Liderança

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Gestão de excelência

O professor de Gestão Estratégica de Pessoas, Marco Túlio Zanini, falou sobre o vínculo ético e a confiança nas empresas durante a HSM ExpoManagement 2010.

 

1 – Como você avalia o modelo de gestão nas organizações?

"O modelo de gestão nas organizações brasileiras, em geral, é marcado pelo autoritarismo e pela baixa capacidade do exercício da autonomia na base. Por isso, poucas empresas conseguem realizar uma boa gestão da inteligência competitiva a partir das informações da ponta e acabam trabalhando com o foco na tarefa e em demandas de curto prazo. Esse modelo é pouco sustentável e apresenta baixa eficiência porque não consegue trabalhar num nível melhor de competência de cada indivíduo."

 

2 – Quais são as mudanças necessárias diante dos novos desafios do mercado?

"A inovação e o aumento do valor agregado ao negócio estão no centro dos desafios de mercado. Para que as empresas possam inovar e se diferenciar é necessário criar um contexto para que a inovação possa ocorrer. Esse contexto solicita uma gestão de pessoas com excelência, desdobramento estratégico típico de empresas que procuram entregar qualidade ao mercado. Empresas pouco criteriosas quanto à inovação geralmente não privilegiam a gestão e o desenvolvimento de pessoas como uma estratégia fundamental para construção de valor."

 

3 – Quais são as principais dificuldades de implementar essas mudanças?

"A principal dificuldade é capacitar executivos para enfrentarem uma gestão mais complexa e com maiores incertezas. Saber enxergar as realidades do modelo cultural e do ambiente corporativo requer o exercício prático e a compreensão de disciplinas que até então não costumavam fazer parte dos currículos tradicionais. Por outro lado, padrões, regras e normas que garantiram o sucesso no passado começam a perder sua eficiência em decorrência da complexidade e das incertezas. Buscar agir baseado em princípios, ter autoconfiança e a capacidade de realizar uma boa leitura do ambiente organizacional passam a ser competências muito importantes."

 

Em busca de um norte
Por Marco Tulio Zanini e Carmen Pires Migueles, professores da Fundação Dom Cabral
 
 
Por que precisamos de líderes? Frequentemente, o conceito de liderança se confunde com o de fama, celebridade, prestígio e cargo hierárquico. É necessário buscar o seu real significado. E aí está: liderança é uma forma de poder que emerge da confiança recíproca entre líder e liderados, e não de uma determinação formal. Uma pessoa só se torna um líder se tiver o aval de seus liderados. Seu papel é ressignificar e criar sentido para o trabalho coletivo.

No livro que lançamos recentemente em parceria com outros autores, montamos uma coletânea de artigos que indica alguns caminhos para responder à pergunta primordial deste texto. Liderança Baseada em Valores (Editora Campus, 2009) apresenta a síntese do que cada autor pensa sobre o tema. Nele, defendemos a ideia de que líderes que agem baseados em valores são fundamentais para conduzir as empresas em cenários complexos e imprevisíveis. O que diferencia essa coletânea não é só o fato de reunir pessoas que acreditam na importância da ética e da ação baseada em valores. É, também, o fato de reunir autores que acreditam que esse é o fator que diferencia as grandes organizações das organizações comuns. A liderança não pode ser compreendida somente como uma qualidade pessoal ou como atributo de indivíduos específicos, mas como um conjunto de caminhos construído coletivamente - e que abre espaço para o novo. Esses caminhos podem surgir da excelência da governança de uma organização ou de um "pacto ético" entre pessoas em uma empresa. Algo, enfim, que sustente uma forte percepção de justiça, motivação para o trabalho e sentido.

Construir visões partilhadas da realidade é, hoje, um desafio essencial para o líder. A destruição das tradições, o culto ao individualismo e à liberdade, a defesa do pluralismo e o acolhimento da diversidade, entre outras mudanças de paradigma, reduziram as possibilidades de coerção direta de um ser humano sobre o outro. O engajamento, portanto, precisa ser construído. Mesmo para quem está empregado, há inúmeras formas de não cooperar - e elas ameaçam a sustentabilidade das organizações. Construir essa cooperação depende de dar um significado ao trabalho, de construir laços sociais entre o indivíduo e a organização (ou as pessoas dentro dela) e de perceber qual é o valor que a empresa produz para os clientes e para a sociedade como um todo.

A relevância da liderança baseada em valores aumentou ainda mais depois da crise, quando ficou claro que a meritocracia financeira descontrolada - que premia resultados de curto prazo descomprometidos com a qualidade do trabalho e com a perenidade das empresas - é capaz de fazer estragos. A solidez dos valores também provou ser essencial na transição da economia industrial para a do conhecimento, em que vigoram mecanismos de gestão baseados em consentimento e reciprocidade - distintos daqueles que se mostraram eficientes no passado.
 
Essas transformações apontam para uma direção: a necessidade de encontrar um processo que desperte virtudes e "ressignifique" o trabalho coletivo. A liderança baseada em valores é o elo perdido das organizações contemporâneas, especialmente quando elas se deparam com o vazio deixado pelas novas configurações sociais, tais como as demandas de curto prazo, a quebra dos laços de confiança e o predomínio das relações baseadas em interesses. Nossa experiência com diagnósticos estratégicos organizacionais mostra que essa é uma preocupação constante de gestores e dirigentes de empresas - que, cada vez mais, reconhecem a necessidade de motivar, despertar e criar sentido para as outras pessoas.

 
A liderança baseada em valores também torna as empresas mais eficientes ao reduzir os riscos da inconstância do comportamento humano. Ela motiva as pessoas a aportarem suas melhores ideias, contribuições e esforços adicionais no cumprimento de objetivos coletivos. Promove a coalizão e dá força à cooperação espontânea - que só é de fato espontânea quando existe uma relação de confiança mútua entre o líder e seus liderados.

Com valores sólidos, o líder age sobre a realidade simbólica do grupo. Ele consegue promover a unidade e definir um norte estratégico por meio do estímulo das virtudes pessoais de cada indivíduo. O líder reconhece que a formação do bom profissional não depende somente do domínio da boa técnica, e sim da construção de sua autoestima.

Motor do processo de mudança organizacional, ele move a ação coletiva espontaneamente, trazendo à tona o melhor de cada um. O resultado é que ele muda a realidade ao seu redor, aumentando os espaços de liberdade e formando indivíduos que se enxergam como capazes e responsáveis por conduzirem suas próprias rotinas e apresentarem seus resultados.

O líder com valores sólidos enxerga outras possibilidades e cria espaços de sentido, ética, realização e excelência onde a maioria das pessoas só enxerga pressão por resultados e redução de custos. É o indivíduo que, dizendo não ao fatalismo e ao pessimismo, mobiliza as pessoas na busca das soluções possíveis ou necessárias.

Na falta de outros indicadores de sucesso, temos usado a métrica financeira como a grande bússola das nossas organizações. Ao fazer isso, porém, nós destruímos as precondições para a produção de valor verdadeiro e sustentável. O líder que age baseado em valores é, de certa maneira, o antídoto para esse problema. Ele evita a armadilha dos indicadores financeiros mais rasteiros e ocupa um espaço crucial a ser preenchido nas empresas contemporâneas.
Habilidades essenciais da liderança (IV): a fidelidade
Por Márcio Campos, Professor e Gerente da Fundação Dom Cabral
 
 
 Entre as habilidades essenciais do líder, a fidelidade – qualidade ou o caráter daquilo que é firme e contínuo, portanto do que não muda – é a última virtude a ser tratada nesta série de artigos. Mas, se as mudanças são de fato constantes, se tudo está em transformação e se o ambiente está em permanente alteração, como falar de fidelidade?
 
Se hoje nós não somos os mesmos que éramos ontem, por que as pessoas deveriam manter suas promessas? A questão é que o fundamento do ser ou a identidade relacional do indivíduo, que é de caráter puramente moral, está assentada na fidelidade que jura a si mesmo.  Essa fidelidade irá, conseqüentemente, estabelecer relações entre a atitude do indivíduo e sua relação com os outros, em especial com aqueles que convive diariamente, seja na família ou no trabalho.

É essa relação que faz com que as pessoas, mesmo não sendo as mesmas de outrora, sejam reconhecidas como sendo as mesmas, uma vez que assumem uma identidade e uma determinada história passada. Além disso, a sociedade nos cobra coerência com relação ao que somos e às nossas atitudes para que nos tornemos confiáveis.

Fidelidade significa, portanto, ser confiável e a confiança é o ingrediente básico para a construção de um relacionamento saudável entre os indivíduos e, especialmente, nas equipes que pretendem ser de alta performance. Fidelidade pressupõe memória e uma pessoa só pode ser fiel ou infiel ao que se lembra.

Em outras palavras, a fidelidade é a virtude de se ser o mesmo, pelo qual o mesmo existe ou resiste. Esse processo pode nos ajudar a compreender as razões de pessoas resistentes às mudanças. Ao contrário do que comumente somos levados a pensar, devemos ser tolerantes com os resistentes, pois não se abandona gratuitamente uma memória.

Dessa forma, fidelidade não é recusar-se a mudar de idéia ou submetê-la a outra coisa que não ela mesma ou, ainda, considerá-la como se fosse absoluta. Ter fidelidade é simplesmente recusar-se a mudar de idéias gratuitamente (por exemplo, por modismos), sem que se apresentem boas razões para isso.

Para isso, é preciso ter fidelidade a princípios que orientem e estruturem os comportamentos, sem que isso signifique rigidez ou inflexibilidade. Nesse sentido, compreender e respeitar os valores de outros indivíduos é essencial, sobretudo em equipes diversificadas com pessoas que tem como referencial comum apenas o trabalho, a forma de executá-lo e as regras de convivência.

No entanto, as idéias e as crenças que temos sobre as coisas, sejam elas de qualquer natureza, podem estabelecer ou criar processos de isolamento entre as pessoas. Por isso, é fundamental que cada um de nós reveja constantemente seu referencial de crenças e idéias, mesmo quando elas se revistam na aparência do saber sofisticado e da erudição, o que é particularmente verificado nas organizações empresariais.

Geralmente, nos ambientes corporativos, estão, de um lado, aqueles que imaginam que sabem e julgam-se no direito e dever de ter o controle e o comando, e, do outro, os que ainda precisam vir a saber e devem-se submeter aos controles e aos comandos. Mas, para exercer uma liderança eficaz, é preciso que se incentive uma constante revisão e renovação, criando objetivos comuns e contribuindo para uma maior integração de todos os integrantes da equipe.

Assim, há de se observar, vigilante e permanentemente, a nossa relação pessoal com nossa memória, ou seja, com os princípios e valores de relacionamento interpessoal aos quais somos fiéis de forma a transformá-los por meio da prática e da ação em habilidades gerenciais. Sem nunca se esquecer que a fidelidade deve ser sempre uma ação e não um mero discurso.
Habilidades essenciais da liderança (III): a polidez

Por Márcio Campos

*Professor e Gerente de Projetos da Fundação Dom Cabral

Neste terceiro artigo sobre as habilidades essenciais do líder, vamos abordar a polidez, uma habilidade mais fácil de ser administrada, uma vez que se refere apenas à atitudes formais e não envolve as pretensões morais do indivíduo (ser educado não fere princípios ou crenças de ninguém).

A polidez tem utilidade inclusive para todos os indivíduos, até mesmo para aqueles que têm interesses que vão além do fato de serem educados, muito embora a manipulação seja um ato condenável de desrespeito ao outro quaisquer que sejam suas intenções ou propósitos. Dessa forma, ainda que aparente ser uma virtude, a polidez não o é.  

A polidez em si mesma é uma habilidade pequena, mas que pode ser um diferencial para o seu desempenho social. Assim é fundamental que as pessoas, mesmo aqueles indivíduos extremamente rudes, exerçam a polidez, pois acabamos nos parecendo com aquilo que imitamos.

Em outras palavras, depois de certo tempo exercitando torna-se natural aquilo que, a princípio, parecia artificial e difícil. Essa é a regra para toda e qualquer mudança, pois, paradoxalmente, qualquer espontaneidade só se consegue com esforço, disciplina e perseverança.

Ao transportar essa reflexão para o universo das organizações, pode-se verificar que um gestor não muito competente, mas extremamente polido, é muitas vezes preferido a um outro que pode até ser mais competente, mas é grosseiro e mal educado.

Obviamente estamos falando da preferência das pessoas e não dos interesses empresariais que normalmente se orientam por outros parâmetros como resultados e lucro. No entanto, é importante ressaltar que a competência nas ações gerenciais será muito mais eficaz se estiver revestida de atos de polidez do que a mesma competência revestida de grosseria e rudeza no trato das relações interpessoais.

Como, a cada dia, cresce nas organizações a importância da liderança, se uma das características do líder for a polidez, ele conseguirá envolver sua equipe de forma afetiva e comprometida, conseguindo alcançar seus objetivos com mais agilidade e garantindo os resultados desejáveis.  

Esse será, com certeza, um grande diferencial competitivo para a organização e também uma instrumental particularmente eficaz para o líder.

Contudo, não se deve esquecer o princípio da prática da polidez: o outro para os outros somos nós mesmo. Ou seja, mesmo não sendo uma virtude, a polidez tem a sua forma, e a aparência é fundamental. Até mesmo o amor não poderá prescindir totalmente de suas formas. Para ser amor, ele terá de aparentar-se em atos.

Ao contrário daquilo que somos normalmente levados a crer, não basta, por exemplo, que os pais amem a seus filhos, é preciso que esse amor seja demonstrado inúmeras vezes, exaustivamente, para ser apreendido.

Dessa forma, polidez e amor são necessários um ao outro. Se a polidez não revela necessariamente um ato de amor, ao contrário, o amor somente se tornará manifesto e, portanto, percebido, por meio das características formais da polidez: a delicadeza, a atenção e o carinho.

Assim, se comparada a outras virtudes e a outras qualidades humanas, a polidez pode parecer superficial ou quase insignificante, mas mesmo pessoas inteligentes e virtuosas não estão dispensadas da polidez. Você não é uma exceção!

 

 

Habilidades essenciais da liderança (II): a coragem
Por Márcio Campos, gerente e professor da FDC.
 
A coragem é outra habilidade essencial para o exercício efetivo da liderança, principalmente porque o trabalho em equipe e o convívio nos ambientes empresariais nos exigem determinados papéis sociais com os quais nem sempre nos sentimos confortáveis.
 
Assim, é preciso ter coragem para ser o que somos apesar das controvérsias, dos imprevistos e das possíveis ameaças (implícitas ou explícitas). Além desses desafios, é preciso, sobretudo, se desapegar do cargo ou função gerencial ocupado, encarado-os sempre como uma situação circunstancial.
 
Porém, mais do que afirmar-se como si próprio – o que constrói e caracteriza a consciência individual – é preciso ter coragem para ser parte de um determinado grupo social. Em outras palavras, é preciso resistir à tentação de querer ser o integrante mais importante, entendendo que, paradoxalmente, cada um é igualmente importante.
 
Viver coletivamente significa participar e aceitar (in)conscientemente os papéis sociais que nos atribuímos e que nos são atribuídos, compartilhando nossas vidas e experiências. Mas isso não é algo que se faça com facilidade, especialmente diante da extrema competitividade presente no mundo empresarial.
 
A despeito dos discursos que defendem a gerência participativa como moderno recurso de gestão organizacional, esse é um exercício de elevado grau de dificuldade particularmente em posições gerenciais, devido à postura geralmente imperial da maioria dos gerentes.
Mesmo com um aparente discurso sobre a democratização e a humanização das relações de trabalho, participar e compartilhar nesses ambientes é quase uma utopia. Para viver em um ambiente saudável, você terá de ceder, conceder, barganhar e trocar: terá que ter coragem!
 
Para essa constante negociação é fundamental que se tenha como premissa que os negociadores, independentemente da posição que ocupam, têm direitos iguais de veto daquilo que difere de sua convicção. De modo contrário, não há verdadeiramente uma negociação.
 
Nas organizações empresariais, as regras, as normas e as técnicas funcionam como geradoras de padrões comportamentais voltados para a segurança e a tranqüilidade. Essa universalidade faz com a maior parte das empresas tenham um perfil assemelhado, uma vez que a lógica e a razão são anônimas e universais e coragem é particular e pessoal.
 
Dessa forma, não nos tornaremos gestores mais competentes e humanizados pelo emprego de procedimentos lógicos e técnicos, mas pelo amor e afeto que manifestamos até mesmo para as pessoas que nos são relativamente estranhas.
 
Nesse sentido, o verdadeiro líder deve implementar uma cultura de participação e compartilhamento com a sua equipe, que exigem um expressivo grau de liberdade. Para isso, o líder precisará de muita coragem já que gerenciar pressupõe, muitas vezes, correr riscos.
 
O líder não deve ser um herói, que se caracteriza pela ausência do medo, mas sim admitir seu medo e ter a coragem de enfrentá-lo. Embora possa não parecer, é preciso coragem não só para agir, mas também para pensar. Pensar é um ato solitário que demanda uma eterna luta contra si mesmo e contra as ilusões tranqüilizadoras e as mentiras confortáveis.

Exercer a liderança é criar estruturas organizacionais que favoreçam e permitam que cada individuo exerça plenamente suas potencialidades. Essa atitude poderá, eventualmente, fazer com que você sofra pressões e ameaças por parte daqueles que têm outros interesses e não querem a mudança para essas novas possibilidades de relacionamento.
 
Ser realmente um líder pode significar, em muitas ocasiões, sentir medo. Não obstante, o verdadeiro líder precisa ter coragem para enfrentar os medos e conseguir realizar sua missão em toda sua plenitude.
Habilidades essenciais da liderança (I): a generosidade
Márcio Campos, gerente e professor da Fundação Dom Cabral
 
Uma pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral que analisou as tendências do desenvolvimento das empresas no Brasil, visando o cenário de 2015, aponta que a orientação para resultados, a capacidade para trabalhar em equipe e a liderança serão os três atributos mais importantes requeridos pelas organizações.
 
Diante dessa crescente tendência no mercado por desenvolver os chamados líderes de equipes de alta performance, vamos abordar neste e nos próximos artigos desta coluna alguns dos atributos que consideramos fundamentais para o exercício efetivo da liderança.
 
É possível exercer uma efetiva liderança sem que haja, além da competência técnica, um genuíno compartilhamento e doação de experiências visando um bem comum? Se as pessoas fossem naturalmente generosas e menos egoístas do que normalmente o são, não haveria por que falar da generosidade como uma virtude e um atributo essencial da liderança.
 
Mas, o que é essa generosidade? Ou, ainda, como reconhecer uma pessoa generosa? Em primeiro lugar, é preciso compreender que essa pessoa só será reconhecida se estiver praticando um ato generoso, pois a generosidade não tem existência por si mesma. Em outras palavras, não basta uma pessoa anunciar-se generosa para assim se tornar e ser reconhecida como tal.
 
Para tornar-se uma pessoa generosa, cada um deve buscar o seu desprendimento, abandonando suas pequenas covardias, cóleras, ciúmes e possíveis invejas. Ter ciúme é desejar estar no lugar do outro, o que não é de todo mal se não perdermos essa perspectiva do olhar. Já a inveja é não querer que o outro tenha ou esteja no lugar em que está.
 
A inveja se faz mais presente ainda quando a tônica que rege a existência desses grupamentos humanos é a competição. Nesse cenário, a generosidade quase inexiste e, talvez por essa razão, ela se faz paradoxalmente mais necessária como valor ou ferramenta relacional.

Por outro lado, não se deve querer transformar a generosidade em um ato de amor. O amor não se administra. Não há como conseguir que colegas de trabalho, sejam eles gerentes ou subordinados, nutram entre si sentimentos de bem querência, de afeto ou de amor, por um ato de vontade ou por uma decisão racional.
 
Para ser generoso basta que se queira e se decida sê-lo. Amor e generosidade se parecem na forma por significarem doação e desprendimento, sendo assim muitas vezes confundidos. Mas generosidade e amor são essencialmente distintos. Doar quando se ama está ao alcance de qualquer um. Ser generoso, ao contrário, é doar sem amar e aí reside a essência dessa virtude.
 
Nesse sentido, a generosidade se fará mais necessária quanto mais difíceis forem as pessoas com as quais se tenha compulsoriamente de se relacionar, por exemplo, em um ambiente de trabalho. Nesses ambientes, via de regra, o critério que norteia a composição dos times e das equipes é a presumida competência técnica.
 
Assim, os membros de uma equipe de trabalho, além de terem de ser competentes tecnicamente, devem buscar intencionalmente o exercício da generosidade, uma vez que a convivência de diferentes indivíduos pressupõe sempre a doação.
 
A generosidade deve ser, portanto, uma premissa para se bem trabalhar em equipe. Pessoas competentes tecnicamente, mas incapazes de serem generosas, jamais se tornarão realmente líderes ou contribuirão para a formação de verdadeiras equipes de trabalho. Quando muito serão “chefes”, parte de grupos de trabalho que podem até ser eficientes, às vezes eficazes, mas nunca efetivos.
Precisa-se de um novo líder
Por Marta Campello - Professora da Fundação Dom Cabral
 
Atualmente, fala-se muito no papel e no desenvolvimento de líderes nas organizações. A questão é que, neste mundo de grandes mutações, as empresas e os profissionais precisam, cada vez mais, apresentar uma performance diferenciada. Nesse sentido, surge o papel do líder que deve contribuir de maneira relevante para o aumento da motivação e da produtividade de toda a equipe com quem trabalha.
 
É comum que profissionais muito competentes tecnicamente se destaquem nas organizações, assumindo uma posição de liderança e sendo responsáveis pela coordenação de recursos, processos e, principalmente, pessoas. Geralmente, trata-se de uma pessoa com boa formação acadêmica que entende do negócio em que atua e vem garantindo bons resultados para a organização.
 
No entanto, muitas vezes, esses profissionais acabam se envolvendo mais nas tarefas técnicas do que na gestão das pessoas, já que nem sempre estão preparados para tal função. Mas o bom líder precisa ter mais do que atributos técnicos, ele precisa também do que denominamos competência socioemocional. Afinal, ele lida todo o tempo com pessoas e, consequentemente, com relações, sentimentos e emoções.
 
Pela própria natureza da sua função, o indivíduo, no exercício da liderança, tem que enfrentar situações de tensão e, frequentemente, uma forte carga de estresse. É exatamente nesses momentos de alta tensão e estresse que o indivíduo demonstra o seu equilíbrio ou desequilíbrio emocional. Neste último caso, podendo influenciar negativamente não só o desempenho da sua equipe, mas também sua imagem e a confiança anteriormente estabelecida.
 
Sabe aquele tom de voz mais alto e agressivo que saiu na hora errada? A paciência que se perdeu no momento que não deveria? A intolerância demonstrada com aquele funcionário menos preparado? A raiva diante de colaboradores que sempre encontram uma justificativa para não assumirem seus erros? O desânimo frente àqueles membros da equipe que se recusam a mudar e não se comprometem com melhores resultados?
 
Essas são algumas das reações que o líder pode ter e que acabam sendo registradas pela equipe. Todos esses sentimentos são inerentes ao ser humano e você não estará livre de vivenciá-los. Mas no seu papel de líder você tem que saber como lidar com essas emoções. Na maioria das vezes, um erro técnico é compreendido, mas não se tem essa mesma conivência com o desequilíbrio emocional porque a imagem que se constrói é a daquele momento em que o líder não soube gerenciar adequadamente a sua emoção frente ao contexto e às condições da equipe.
 
Assim, para entender um pouco o papel do líder, é preciso, antes de mais nada, acabar com o mito do profissional perfeito (ou quase isso). O líder – esse personagem tão importante para o funcionamento das organizações – é um ser humano e como tal vive situações em que não consegue gerenciar e manejar os próprios sentimentos. Mas o ideal é que ele consiga desenvolver algumas habilidades que o ajudem a buscar sempre o equilíbrio em suas ações, decisões e postura.
 
Cada vez mais, as empresas têm percebido que os líderes precisam de uma formação muito mais integral e complexa, que vai além das suas competências técnicas. O que falta, em boa parte dos líderes, é um maior autoconhecimento, que certamente vai contribuir para que ele possa aprender a se autoliderar e, dessa forma, gerenciar melhor a sua equipe.
Se você tem a intenção de se tornar um verdadeiro líder, esteja atento a essa questão e invista também no desenvolvimento das suas competências socioemocionais.
Liderança e Confiança

José Maria Gasalla
Professor da ESADE Business School e da FDC

 

E falamos e falamos de liderança. É o assunto mais publicado nisso que denominamos Management. E não desejo estender-me em coisas que todos já sabemos... embora não as apliquemos.

 

Contentemo-nos com refletir sobre as proposições que nos ofereceu aquele grande sábio que foi Sócrates, de quem pouco sabemos, já que não nos deixou nada escrito, mas que sabemos que costumava dizer que “a única coisa que sabia era que nada sabia”. E isso há mais de 2500 anos. E tudo aquilo que sabemos de Sócrates é através de seus discípulos, dentre eles Platão.

 

Agora, aparece uma quantidade de “sabichões” (alguns deles se autodenominando gurus), acreditando saberem alguma coisa acerca do ser humano. Ocorre que esse possível conhecimento nem sequer tiveram tempo para assimilá-lo e incorpora-lo a suas vidas.     

 

E aí Sócrates vai ao encontro de todos eles quando disse: “quem sabe que não sabe é mais sábio que aquele que acredita saber tudo."

 

Freqüentemente, é difícil termos consciência do que sabemos. Hoje, ainda é mais difícil sermos conscientes daquilo que não sabemos, e é muito complicado para os que se aposentam no seu saber e não evoluem na busca de novos saberes.

 

Mas, provavelmente Sócrates, incansável aprendiz, também queria salientar a capacidade ou competência básica de quem deseja aprender, ou seja, a humildade. E há que reconhecer que não é o que mais freqüentemente achamos nas organizações de hoje e, especialmente, nos seus altos níveis.

 

Que medo alguns têm de serem dogmáticos! Parece como se tivessem tudo tão claro que simulam serem os criadores das realidades de todos os demais. Quanto medo costumam ter esses indivíduos de perderem sua autoridade se tivessem alguma dúvida! Sócrates nos diz a respeito: “jamais ignore a dúvida.”

 

A visão que temos da realidade é a de um simples mapa territorial, mapa até cheio, muitas vezes, de manchas e rupturas. Isso o faz ilegível. Para bons observadores, inclusive. 

 

Adoro quando Sócrates diz: "Não há mal em não saber, mas sim, em nada querer aprender."

 

A questão é que há pessoas (ou somente indivíduos) conformando-se com saber o que sabem... e eu acrescentaria, com pensar o que pensam, com sentir o que sentem, com fazer o que fazem. E, sem dúvida, nesta reflexão é bom recorrer a minha parábola favorita do Evangelho, a dos talentos, na qual os conformistas se deram muito mal.

 

Nesse sentido, Sócrates diz: “não se acomode em seus talentos”. Partindo de uma realidade universal, cada um de nós pode e deve, com base na sua responsabilidade social, tentar desenvolver seus talentos. Não vale isso de “eu sou feliz assim”. Somos seres inter-relacionados integrando um sistema onde todos são co-responsáveis.   

 

Sócrates é plenamente consciente da necessidade do outro quando diz: “esteja aberto para o novo e sempre disposto a aprender com os demais.”

 

O novo assusta e a crise é uma situação nova para muitos que, ao invés de reagirem procurando um novo caminho, uma nova janela, uma nova visão diferente, se resguardam em seus medos e ficam imobilizados como se fossem estátuas de sal.

 

Mas, e o fato de aprendermos dos outros? A primeira coisa a fazer seria mudar nossos paradigmas, os quais identificam, freqüentemente, como superior àquele do qual aprendemos. Esse paradigma baseia-se nas experiências passadas, onde quem ensinava, às vezes, se encolerizava com o discípulo, fazendo com que se sentisse mal na sua ignorância. 

 

Sócrates, nesse sentido, nos diz “trate o seu interlocutor com respeito.”

 

E isso significa ter consciência do outro como outro ser. Tal consciência é uma das competências básicas da confiança.

Sócrates reforça a importância da coerência (outra das competências da confiança) quando diz: “seja o que deseja aparentar.”

 

Estamos na sociedade da aparência, na qual com freqüência se esquece o ser de cada um. E a aparência costuma basear-se no ter material, no ter econômico ou na ostentação de poder.

 

E o ser é esquecido. Anda por aí meio perdido, quando não totalmente perdido. Acima de tudo funcionam os disfarces, as máscaras. Muitas vezes, a gente se acostuma tanto com elas que deixamos de perceber que não estamos no Carnaval.

 

Sócrates nos diz: “não aprecie somente o fato de viver, e sim a ação de viver bem.”

 

Ele não estava se referindo, ao dizer que se devia viver bem, a termos de morar numa mansão de oito quartos e doze banheiros. Referia-se, isso sim, ao bem moral, à vida de verdade. E isso se relaciona com outra das competências da confiança que é a clareza.

 

A verdade nos fará cada vez mais livres e mais confiáveis.

Finalizo com a máxima iniciativa de Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo", o ponto de partida do que chamamos, na atualidade, de inteligência emocional.

Liderança, artigo de luxo no planeta

Léo Bruno

Professor e pesquisador da FDC

 

Um dos temas considerados mais relevantes hoje no universo organizacional é a liderança. Não só pela importância estratégica no desempenho da empresa como um todo, mas, sobretudo, devido à contribuição do seu papel no desenvolvimento das organizações e da sociedade em que estão inseridas. Assim, se você quer ter uma carreira bem sucedida, é preciso compreender o conceito e o papel da liderança, além de sua extensão e inserção nas organizações contemporâneas.

 

Recentes estudos apontam que grande parte das empresas é, atualmente, mais causadora de insatisfação do que geradora de ambientes motivadores para suas equipes. Com base em pesquisa realizada pela FDC, com 400 executivos de 48 empresas de médio e grande porte no Brasil (sendo 60% multinacionais), podemos afirmar que faltam nos dirigentes dois ingredientes fundamentais que explicam essa insatisfação dos profissionais: criatividade e inovação.

 

A pesquisa parte da premissa de que os executivos podem desenvolver, em geral, cinco valores pessoais: o valor econômico, relacionado aos custos e benefícios no negócio; o valor teórico, ligado à lógica e à razão nas decisões; o valor social, baseado no desenvolvimento das pessoas; o valor político, atrelado ao poder, ao reconhecimento e à influência; e, por fim, o valor estético, vinculado à criatividade e à inovação.

 

Todos esses valores são muito importantes para os dirigentes de uma organização, porém o problema é que, na maioria delas, eles aparecem em desequilíbrio na ordem de prioridade ou preocupação dos dirigentes. Como indica a pesquisa, em primeiro lugar surge o valor econômico; depois, seguem empatados o teórico e o político e, nos dois últimos lugares, estão o estético e o social.

 

Em outras palavras, esses líderes estão demasiadamente preocupados com custos e resultados em detrimento do pouco envolvimento com as pessoas e o fruto do seu entusiasmo. Eles priorizam o seu tempo para viajar, participar de várias reuniões, atender o celular e despachar e-mails, mas não para conversar e avaliar outras questões com seus colaboradores.

 

Dessa forma, o atual cenário aponta para organizações que privilegiam valores equivocados, uma vez que esse é o perfil de executivos que perdura há décadas. Isso ocorre por três motivos: tal perfil é aceito nas organizações sem contestação, os conselhos de administração cobram dos executivos somente resultados econômicos e as próprias empresas que, ao selecionar talentos no mercado, optam por esse tipo de profissional.

 

Por tudo isso, ainda perpetua no universo organizacional um perfil de liderança totalmente inadequado às demandas da sociedade para as empresas do século 21. Não resta dúvida, portanto, que a liderança continua a ser, há milênios, um artigo de luxo no planeta. Se isso não fosse verdade, não teríamos mais de dois terços da humanidade morrendo, passando fome ou vivendo com menos de dois dólares por dia.

 

Nesse sentido, a UNESCO tem discutido a necessidade de se buscar um novo paradigma para a liderança, a partir do conceito de que ela é um processo de influência, não uma influência pura e simples,mas que promova necessariamente o desenvolvimento humano. Como resolver este problema? A resposta é simples, apesar de a solução ser complexa: por meio do investimento na educação da população. Líderes se formam desde os primeiros anos da escola.

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