Anderson Rossi - professor associado da Fundação Dom Cabral
A inovação pode ocorrer de forma incremental ou radical nas empresas. A primeira implica ações no curto prazo e visa a manter o negócio. É uma melhoria contínua dos produtos e processos, que, nas organizações, acaba sendo conduzida de maneira quase operacional no dia a dia. Por outro lado, a segunda forma de inovação, a radical, conduz a empresa a um novo patamar no longo prazo, seja por se tornar mais competitiva ou por tomar nova orientação estratégica. Este ‘salto para o futuro’ envolve necessariamente riscos e investimentos que, se acertados, trarão mais prosperidade e competitividade à organização.
Hoje, um gestor deve perguntar-se: quero manter o meu negócio ou transformá-lo? Em outras palavras: pretendo investir no curto prazo, com melhorias pontuais e, assim, tentar manter o meu negócio ou pretendo investir no longo prazo, por meio do desenvolvimento tecnológico e, assim, antecipar-me ao futuro? A fronteira entre a inovação incremental e a radical está no cerne dessa questão.
Pesquisa realizada pelo Núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral, de dezembro de 2011, revela que 81% das empresas brasileiras adotam a inovação incremental, que é empreendida rotineiramente com a introdução de melhorias pontuais em processos, produtos e recursos humanos.
A opção pelo ‘incremento’ é conservadora, limitada ao curto prazo e geralmente está desvinculada da evolução do mercado. Com a globalização e a concorrência por mais competitividade, deixar a empresa no compasso incremental da inovação significa deixá-la envelhecer e, no médio ou longo prazo, ela pode até desaparecer. É necessário correr riscos para sobreviver.
A inovação radical, por outro lado, está intimamente relacionada à capacidade de uma empresa em se antecipar ao futuro. Isso requer tempo, estudo e investimentos.
Neste processo, também está embutido o risco da escolha - uma estratégia equivocada pode causar profundos danos financeiros à empresa. Por outro lado, esta forma de inovar é uma aposta no futuro que, se acertada, trará um ‘salto’ à companhia, que passa, em muitos casos, a direcionar o mercado. A escolha por esse tipo de inovação é estratégica e parte da alta direção, pois, uma vez empreendida, poderá implicar um novo modelo de negócios ou na transformação completa de seu mercado. A inovação radical é sinônimo de mudança e, justamente por isso, está mais alinhada à dinamicidade dos mercados, hoje tão patente.
Diante deste cenário, o patamar ideal para uma empresa é tornar-se ‘ambidestra’. Em outras palavras, ‘chutar com as duas pernas’, aplicando tanto a inovação incremental quanto a radical na organização, e gerenciando essas duas vertentes dentro da empresa por meio de núcleos separados, cada um com gestão diferenciada e propósito específico. Esse modelo é possível e prescinde de definição estratégica por parte da empresa.
Companhias dos Estados Unidos, Alemanha, Coreia do Sul e Japão têm apostado na inovação radical e estão criando ou reformulando seus mercados de atuação. No Brasil, prevalece o modelo ‘arrisque pouco, acerte sempre e siga faturando’. É uma estratégia que funciona, mas a volta do relógio pode trazer mudanças e é imprescindível antecipar-se a elas.