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Espaço de Diálogo Gestão Pública

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Para crescer melhor, investir é preciso
 
Por Paulo Paiva - Professor da FDC. Foi Ministro do Trabalho e do Planejamento e Orçamento do Governo FDC

Nos últimos anos, a economia brasileira tem demonstrado alto grau de estabilidade no seu desempenho macroeconômico: reservas externas bastante confortáveis, relação dívida líquida/PIB decrescente, inflação dentro da faixa estabelecida no programa de metas, geração de superávit primário, câmbio em nível competitivo e taxa básica de juros no seu piso mais baixo. Resta à economia voltar a crescer. Em 2008, o governo enfrentou a crise com medidas de impacto na demanda cujos resultados foram positivos. Manteve sob sua responsabilidade a maior parte dos investimentos em infraestrutura. À época, resistia bravamente a qualquer esforço mais amplo de privatização dos serviços públicos.

Essa estratégia se esgotou. Medidas semelhantes tomadas recentemente não obtiveram as respostas esperadas. A expectativa de que a economia se recuperaria no segundo semestre não se confirmou. Ao contrário, a produção industrial continua em estado de letargia. Entre as principais barreiras ao crescimento destacam-se as deficiências de infraestrutura que oneram os custos de logística e reduzem a eficiência da economia. O setor público não tem sido capaz de superar esses obstáculos. Seus recursos são escassos - nem mesmo a Cide foi um instrumento eficaz para elevar os investimentos públicos em infraestrutura - e sua gestão é ineficiente: faltam planejamento, coordenação de ações, projetos e execução.
 
Abandonando as iniciativas pontuais de estímulo à demanda para recuperar a economia no curto prazo, o governo optou por seguir novo rumo ao divulgar o Programa de Investimentos em Logística, por meio de concessões plenas no transporte rodoviário, e parcerias público-privadas no transporte ferroviário. A decisão merece elogios. Aqui, neste espaço, no dia 25/7, observei que o governo tem a responsabilidade de definir objetivos, desenhar e implementar programas com cronogramas preestabelecidos e divulgá-los. E perguntei: quem sabe, hoje, o que o governo quer com os serviços de utilidade pública?
O anúncio de um plano de transportes e logística, com suas metas e cronograma, é um passo importante na busca do tempo perdido. O governo indica, finalmente, o seu caminho para reconstruir a infraestrutura de logística do País. É, sobretudo, o reconhecimento de que a economia somente poderá retomar seu crescimento a partir da expansão da oferta - isso requer tempo - e de que a participação do capital privado nos serviços públicos é condição necessária, chame isso de privatização ou não.
 
No setor rodoviário, serão mais de 7 mil km que passarão para a gestão privada, mais do que toda a malha federal já concessionada. No setor ferroviário, a expansão será ainda maior, chegando a 10 mil km, com a participação pública por meio da Valec. O governo criou, ainda, a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), com funções semelhantes às do extinto Grupo Executivo de Integração da Política de Transportes (Geipot).

Subsistem, contudo, dúvidas quanto à factibilidade do programa. Qual o papel da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)? Para supervisão, acompanhamento e fiscalização das concessões de serviços públicos à iniciativa privada, a existência de uma agência reguladora independente e de alta capacidade é necessária. Não parece ser o que o País tem hoje na área de transportes terrestres.
A ANTT não tem sequer um presidente efetivo. A criação da EPL e o fortalecimento da Valec sugerem que o Poder Executivo pretende ter participação maior na gestão dos transportes terrestres. Não havendo uma clara segregação de responsabilidades entre, de um lado, a concedente e a concessionária e, de outro, uma agência com legitimidade e imparcialidade para mediar e dirimir os possíveis conflitos, a possibilidade de insucesso do programa torna-se iminente.

Existem estudos de viabilidade econômica que justifiquem a concessão de todos os trechos divulgados? A garantia do equilíbrio econômico-financeiro da concessão é a chave para atrair empresas experientes. As audiências públicas poderão contribuir para a formulação do modelo mais apropriado de concessão, muito embora as experiências anteriores não sejam boas conselheiras. São conhecidos os resultados de concessões onde se procurou apenas minimizar o preço e as vencedoras não fizeram os investimentos necessários.

Quais os critérios que serão adotados para garantir a qualidade dos serviços ofertados? Se, no processo licitatório, não forem exigidos padrões de qualidade dos serviços, baseando-se a concessão apenas em menor preço de pedágio, os consumidores irão, mais uma vez, pagar sem receber o serviço com qualidade. É fundamental combinar preço e qualidade do serviço. Nas rodovias, segurança é um dos fatores básicos da qualidade.
Através de maior eficiência e competência na implementação e execução, as concessões deverão contribuir para elevar o nível de investimentos e melhorar a eficiência da economia e a qualidade dos serviços públicos. Será isso possível? O tempo dirá.

Não é um programa para resultados de curto prazo. Com exceção, talvez, de dois trechos rodoviários - BR 116 e BR 040 -, em tudo o mais a população só verá obras, se vier a ver um dia, a partir de 2014.
 
 
Paradoxo do Crescimento
Por Hugo Ferreira Braga Tadeu, professor convidado da FDC


Para o cientista da computação Alan Kay, "o passado não deve ser base para um pensamento de longo prazo, pois o futuro é incerto. No entanto, deve-se criar o futuro, com constantes inovações", segundo o livro "The Early History of Smalltalk", 1996.

Seguindo esta mesma lógica, o ex-ministro da Fazenda Delfim Neto apregoa que, nos últimos 60 anos, os economistas vêm errando em suas previsões, destacando a falta de compreensão sobre a Produtividade Total dos Fatores (PTF), relacionando o tema ao capital humano, PIB, infraestrutura e as incertezas nas previsões, conforme o texto "Profecias para 2012, Valor Econômico, 10/01/2012".

No entanto, tanto Alan Kay quanto Delfim Neto estariam corretos em suas afirmações, principalmente quando o tema é o crescimento nacional? Quais os desafios atuais e de longo prazo? O que o passado recente pode nos ensinar?

Dados do Banco Mundial indicam que o Brasil ainda tem muito que o fazer quando os assuntos são capital humano, infraestrutura e um ambiente adequado para negócios, apesar da sexta colocação entre as maiores economias do mundo. Destacam-se, ainda, os resultados abaixo da média internacional para indicadores como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), renda per capta e testes educacionais, sendo motivo de atenção e melhorias.

Se na gestão do então Presidente Collor, abriu-se a economia brasileira para o mundo, hoje, o diálogo está associado às barreiras Argentinas às importações, os desafios referentes à crise européia e sinais de arrefecimento chinês, grande comprador de commodities e com elevada participação na balança comercial.

Caso o passado tivesse um grande peso para as previsões futuras, poder-se-ia dizer que o Brasil teria sérios problemas em 2012, fruto do cenário internacional, conforme os tempos da inflação. Mas, como citado anteriormente, o passado não deve servir de base para um futuro incerto, devendo-se criar as bases para esse futuro.

Os problemas residem "as bases para o futuro". Delfim Neto está correto ao afirmar que "os economistas vêm errando em suas previsões, destacando a falta de compreensão sobre a PTF", devido à visão destacada para indicadores e menos na formulação de políticas estratégicas de futuro.

O Brasil não investe adequadamente em educação e na formação de mão de obra qualificada, muito menos em infraestrutura, com notáveis gargalos nas rodovias, portos, aeroportos, ferrovias, redes de energia, telecomunicações e saneamento básico. Diversos estudos indicam a função "desenvolvimento", correlacionada a estes fatores.

Concomitantemente, o ambiente de negócios é cercado de alta carga tributária, burocracia e a incerteza quanto às decisões relacionadas à inflação, legislação como um todo e questões político-partidárias complexas.

O ideal imaginário poderia ser uma país em que o Governo exercitasse sua capacidade de gestão com um viés privado, reduzindo a sua participação a questões centrais, constitucionais e regulatórias, abrindo espaço para maior inserção privada, em um ambiente inovador para negócios.

Conforme escrito pelo filósofo Bertrand Russell, "não tenha certeza de nada". Complementando, "o mundo é feito em ciclos de crescimento e quedas", em seu livro "Código de Conduta", 1969, restando ao Governo a busca pela agilidade de decisões e a manutenção do crescimento sustentado, ainda mais quando a produtividade não ultrapassa o limite de 1% ao ano, segundo dados do Banco Mundial (2012).
 
Fonte: Brasil Econômico On-line - 25/01/2012
 
 
Boa Governança em Gestão Pública


Por Paulo Paiva - Professor da Fundação Dom Cabral.
Ex-ministro do Trabalho, Planejamento e Orçamento no governo Fernando Henrique Cardoso


O setor público deve contribuir para aumentar a eficiência da economia e promover distribuição mais equânime das oportunidades e dos recursos. É para isso que o governo existe e os impostos são cobrados.

Desse ponto de vista, as ações do governo concentram-se no fornecimento de bens e serviços públicos, como segurança, educação, saúde e nas atividades de controle, como regulação, fiscalização e supervisão.

Estão em curso na administração pública novas práticas de gestão com a incorporação dos avanços de inovação em tecnologia e de modernização de práticas gerenciais. Pode-se dizer que "virou moda" em governos falar em busca de eficiência, melhores práticas gerenciais, planejamento estratégico, gestão digital, entre outras expressões comuns à administração privada.

Torna-se necessário cuidar do ambiente onde essas novas práticas e tecnologias estão sendo usadas para que a ação do governo resulte em benefícios para a sociedade.

Ainda hoje na administração pública convivem simultaneamente práticas do modelo patrimonialista de controle do Estado com outras do excessivo controle burocrático que restringe os resultados esperados de uma gestão pública racional.

Para a consolidação de boa governança na gestão pública, visando reduzir a extensão de práticas patrimonialistas e da paralisação decorrente do excesso de burocracia, ao menos três aspectos exigem mudanças rápidas e radicais.

O primeiro é a urgente separação entre interesses público e privado. A finalidade do governo é prover bens e serviços públicos à sociedade e, por consequência, seus clientes são todas as pessoas. O Estado não pode e não deve estar a serviço de qualquer interesse privado, quer seja no âmbito da atividade econômica, quer seja no âmbito político-partidário.

Os partidos políticos são essenciais na democracia e representam convicções, ideais e planos de atuação, visando o bem comum. Contudo, uma vez eleito, o governante deve administrar para todos e não apenas para os filiados de seus partidos.

O segundo refere-se à estratégia de provimento dos cargos de gestão. Deve prevalecer a competência profissional, a experiência gerencial na área específica e a conduta pessoal do que a simples filiação partidária. Os administradores, principalmente no primeiro e segundo escalão, são fundamentais para se atingir a eficácia das políticas públicas.

O terceiro trata da gestão orçamentária. Boa gestão não é substituta da disciplina fiscal. Ao contrário, ela requer uma alocação mais eficiente dos recursos, que são escassos. Investimentos em novas tecnologias podem ser excessivos para as necessidades de sua efetiva utilização e, muitas vezes, não se adaptando os processos, podem ser redundantes.

No governo, o objetivo final da boa gestão é buscar fazer mais e melhor com menos. Assim é que o setor público pode contribuir para ampliar a eficiência da economia, condição necessária para garantir o crescimento econômico e o bem estar da população.

Estabelecer critérios de boa governança é essencial para consolidar uma gestão pública racional.


Fonte: Brasil Econômico - 18/01/2012
http://www.brasileconomico.com.br/noticias/boa-governanca-em-gestao-publica_111872.html

Expresso Oriente
Por: Paulo Paiva
Professor da Fundação Dom Cabral
Ex-ministro do Trabalho e do Planejamento e Orçamento do Governo FHC


Nas últimas seis décadas, o mundo experimentou um período de extraordinário progresso com base no crescimento econômico apoiado em crescentes ganhos de produtividade e em significativas conquistas tecnológicas. Os níveis de bem estar da população elevaram-se.

O principal estímulo para o crescimento foi a expansão do consumo das famílias, seguindo padrões de comportamento difundidos nos países desenvolvidos, principalmente nos USA. A participação do consumo na formação da renda americana situou-se em torno de 64%, em média, nesse longo período.

O crescimento demográfico e a estrutura da população deram contribuições importantes a essa expansão econômica. O padrão de consumo foi forjado em uma estrutura etária jovem, construída graças ao aumento das taxas de fecundidade nos países desenvolvidos e à rápida queda da mortalidade infantil nos países em desenvolvimento.

Crescimento populacional acima de 2% ao ano manteve crescente a oferta de mão de obra. Os adultos encontraram trabalho com renda suficiente para o seu consumo e para garantir o do segmento jovem. Os idosos foram sustentados principalmente pelos programas públicos de aposentadoria e pensões, financiados por impostos sobre os rendimentos dos trabalhadores adultos. Crescimentos econômico e demográfico caminharam juntos.

Nas décadas futuras, a direção do mundo será outra. Agora, rumo ao oriente. As economias emergentes estão crescendo mais rapidamente do que as industrializadas. Estimativas mostram que, em 2020, as sete maiores economias emergentes representarão cerca de 40% da economia mundial, enquanto em 1980 respondiam por apenas 18%. Ao contrário, a participação relativa das economias do chamado G7 no produto mundial, que em 1980 era de 50%, cairá para 32% em 2020. Em suma, nas próximas décadas, as economias emergentes, principalmente as do leste asiático, serão as responsáveis pelo crescimento econômico mundial.

No mesmo sentido seguirá o crescimento populacional. Até o final do século 21, deverão ser adicionadas mais 2 bilhões de pessoas às atuais 7 bilhões que habitam o planeta. Esses novos contingentes viverão em sua grande maioria na Ásia e na África. O potencial de consumo e de produção caminha rapidamente para o Oriente.

A estrutura demográfica também está passando por mudanças profundas. A população mundial experimenta uma transição, com redução no número de nascimentos por mulher em idade reprodutiva, resultando em um aumento da participação relativa dos idosos no seu total. Como conseqüência, cairá a participação relativa da população adulta que gera renda para seu consumo e para transferir aos jovens e aos idosos, quer diretamente, quer através de pagamento de impostos que financiam os programas públicos como previdência social, saúde e educação. Conforme estudos recentes conduzidos pelos professores Ronald Lee e Andrew Mason, o rápido envelhecimento da população causará um déficit na diferença entre a renda gerada pela população adulta e a soma de seu consumo com as transferências para os segmentos de jovens e idosos. Serão marcantes as pressões sobre as finanças públicas nas economias, cujos programas de aposentadoria e pensões e de saúde são públicos. Isso deverá ser sentido nos países europeus já nos próximos anos.

Adicionalmente, poderá haver uma queda no nível de consumo. Também, mudará o perfil dos consumidores que não será mais ancorado nos jovens dos países ocidentais. Cada vez mais aumentará a participação da população com idade acima de 60 anos no consumo. Pode-se supor que crescerá a demanda por todos os serviços e produtos de saúde para idosos e por programas de aposentadoria. Mas também se pode supor que o comportamento e as preferências desse segmento demográfico dominarão os padrões de consumo no futuro. Será um estilo de vida, com todas as suas consequências, de população envelhecida.

Mudanças profundas que já estão em curso apontam para um mundo muito diferente no futuro não tão distante. Se, em razão de sua inércia, as tendências demográficas são mais claramente definidas, as da economia são incertas. A economia chinesa, que será a maior do mundo, tem uma estrutura bastante diferente das economias ocidentais. Na China, o consumo participa apenas com 30% de sua renda. Qual será o impacto da predominância asiática sobre o consumo e sobre o crescimento da economia global? Ocorrerá uma difusão dos padrões ocidentais de consumo para a Ásia? Certo é que o crescimento econômico no mundo dependerá cada vez mais no que acontecerá no leste asiático.

Em razão do envelhecimento da população, as demandas sobre a renda dos trabalhadores serão crescentes, enquanto esse grupo se torna relativamente menor. A extensão da jornada de trabalho será insuficiente para sustentar os idosos. Para manter a prosperidade das décadas anteriores, a produtividade terá de crescer em ritmo bem mais acelerado do que no passado.  De outra maneira, como temiam os economistas no final do século 18, a perspectiva de estagnação econômica mundial será mais do que uma simples possibilidade.


Fonte: O Estado de São Paulo, 02/01/12. p. B2


Uma agenda para 2012

Por Paulo Paiva, professor da Fundação Dom Cabral. Foi ministro do Trabalho, Planejamento e Orçamento do Governo FHC
 
Os resultados recentes mostram que a economia brasileira, embora ainda crescendo, está sofrendo uma desaceleração bem superior às outras principais economias emergentes, como China, Índia, Rússia, África do Sul e Indonésia. A expansão deste ano se deve, principalmente, ao consumo das famílias e a produção industrial poderá ficar no mesmo patamar do ano anterior.

A crise internacional promete grandes ameaças, mas pode também oferecer oportunidades, se forem corretamente exploradas. As estimativas são de que as economias industrializadas terão baixo crescimento nos próximos anos, principalmente na região do euro.

A expansão econômica mundial deverá ser sustentada pelo desempenho das economias emergentes do leste asiático. Nesse cenário, o estímulo externo à economia brasileira continuará vindo da demanda por commodities. A produção industrial seguirá dependendo do mercado interno e estará sujeita às restrições conhecidas - baixo nível de poupança doméstica, escassez de financiamento de longo prazo e infraestrutura deficiente. Atacar essas questões é o caminho para estimular o crescimento da economia e deveria constituir-se na agenda do governo para o próximo ano.

Para contribuir com a formação da poupança, o governo deveria, de um lado, assumir um compromisso claro de controle de seus gastos correntes, gerando maior superávit primário. Poderia ser estabelecido um plano de controle de gastos para os próximos três anos e de medidas tanto para reduzir, ao longo do tempo, o desequilíbrio estrutural das contas públicas, como a reforma da Previdência Social, quanto para impor limites à expansão dos gastos com pessoal.

De outro lado, deveria adotar novas práticas de gestão que resultassem em maior eficiência na alocação dos recursos públicos. A primeira medida seria a redução do número de ministérios e a utilização de critérios baseados em experiência, competência e conduta ética no preenchimento dos cargos de chefia e supervisão. A segunda, a adoção de práticas de planejamento estratégico nos diferentes órgãos públicos com definição de objetivos e metas anuais a serem alcançadas. A combinação de equilíbrio fiscal com gestão eficiente é condição necessária à criação de ambiente propício ao crescimento econômico.

A desindexação do sistema financeiro será a principal contribuição para estimular o financiamento de longo prazo. O Brasil ainda mantém instrumentos financeiros dos tempos de alta inflação, anteriores à implantação do real. A oferta de títulos e depósitos remunerados que garantam liquidez e rentabilidade não é compatível com os níveis de taxas de juros de economias estáveis e desenvolvidas. Embora o Tesouro esteja reduzindo a participação relativa de títulos públicos financiados em LFTs, torna-se necessária a sua eliminação. Na mesma linha, é preciso desindexar a caderneta de poupança, com garantia simultânea de remuneração mensal de 0,5% TR e liquidez mensal, constituindo-se em piso para a Selic. Medidas devem ser tomadas para que os níveis de remuneração no mercado financeiro variem inversamente à liquidez, estimulando financiamentos em mais longo prazo e a redução das taxas de juros de curto prazo.

Para enfrentar as deficiências em infraestrutura, há muito que fazer para melhorar o sistema de logística no País - espaço importante para a atração de investimentos privados em concessões puras ou PPPs. Sem prejuízo dos pilares da LRF e dos contratos de acordo de consolidação das dívidas estaduais, há espaço para repactuar o fluxo de repasse dos Estados à União dentro de um programa de recuperação de rodovias federais visando à concessão de sua operação. Ademais, as concessões para aeroportos devem ser aceleradas.

O Brasil poderá tirar proveito da crise internacional para retomar o crescimento de sua produção industrial mesmo num ambiente externo hostil, se ousar em eliminar alguns dos obstáculos que inibem a expansão de sua economia. Os instrumentos para fazê-lo estão disponíveis. A motivação de um novo ano também.

Fonte: Estadão.com – 08/12/2011
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,uma-agenda-para-2012-,808183,0.htm
Mercado globalizado e poder nacional: ameaças e conflitos

Por Paulo Paiva - Professor da Fundação Dom Cabral
 
Se a crise econômica promove instabilidade política, a indefinição política contribui para manter a instabilidade econômica. O mundo torna-se mais perigoso.

Nas últimas décadas do século passado, o mundo parecia ter entrado em um período de permanente prosperidade. A análise das consequências do final da Guerra Fria, que induziu Fukuyama a anunciar o fim da história e a consolidação da globalização, era o sinal do início de uma nova era: no plano econômico, com a expansão do livre comércio, do crescimento do consumo, do emprego e da renda, e no plano político, de liberdade e paz.

Contudo, o século 21 chegou prenunciando outros tempos. O novo século iniciou-se em 11 de setembro de 2001 com a destruição das torres gêmeas em Nova Iorque. O terrorismo ocupa o espaço deixado pela guerra fria. Seus efeitos atingem também a economia, principalmente os fluxos comerciais internacionais.

Sete anos mais tarde, a globalização financeira tem o seu revés com a falência do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008. O modelo de expansão do mercado financeiro com pouco ou nenhum controle ou supervisão supranacional mostrou-se vulnerável.

O novo século começou, então, destruindo as bases da prosperidade que vinha do século passado e colocando em dúvida a visão predominante da supremacia do mercado sobre o controle do governo. É o alvorecer de um período de instabilidade e incertezas.

Sinais das mudanças na orientação da político-econômica nos EUA surgem na administração Obama, com a expansão monetária e fiscal. Ademais, o governo socorreu bancos e grandes empresas visando à manutenção do emprego. Na Europa, as medidas de política monetária seguiram no mesmo sentido, embora menos flexíveis, e houve um afrouxamento no controle fiscal em muitos países para estimular o crescimento.

Quase tudo diferente do que se entendia mais apropriado e se fazia no século passado. Os resultados foram modestos e a crise voltou mais grave, agora, com a combinação de vulnerabilidade bancária no setor privado com desequilíbrio fiscal no setor público. A gestão econômica não contribuiu para a solução da crise de 2008 e tornou-se uma ameaça ao equilíbrio financeiro global. Ampliam-se, assim, os conflitos entre globalização e interesse nacional.

Tais conflitos dificultam a construção de soluções duradoras para um novo equilíbrio. De um lado, nos regimes parlamentaristas, a crise vai abatendo primeiros-ministros, como nos casos da Grécia e da Itália. Outros virão em breve. De outro lado, a agenda político-eleitoral dos EUA e da França, onde haverá eleições presidenciais no próximo ano, dará prioridade aos temas nacionais em detrimento às questões internacionais.

Se a participação dos países emergentes no âmbito do G20 pode ajudar na busca de soluções efetivas, ao incluir, legitimamente, seus interesses na pauta de discussões, torna ainda maior a complexidade na construção de consenso.

Enfim, se a crise econômica promove a instabilidade política, a indefinição política contribui por manter a instabilidade econômica.  O mundo torna-se mais perigoso.

Fonte: revista Viver Brasil -
http://www.revistaviverbrasil.com.br/84/artigos/paulo-paiva/mercado-globalizado-e-poder-nacional--ameacas-e-conflitos-/

 
Oportunidades para empresas multilatinas


Por Paulo Paiva - Professor da Fundação Dom Cabral

As perspectivas de crescimento econômico pós-crise põem em trilhas diferentes os países industrializados e os emergentes. Aqueles têm um caminho árduo com crescimento lento para os próximos anos ou décadas, enquanto estes, uma rápida expansão. Essas tendências divergem daquelas das últimas décadas, quando os países industrializados avançavam mais celeremente graças ao aumento relativo da sua produtividade, quando comparada à dos países emergentes. O fosso aumentava. Agora, ao contrário, diminui. Assim, surge uma clara possibilidade para reduzir nos próximos anos a distância entre a produtividade total dos fatores dos principais países latino-americanos e dos EUA.

Há, na América Latina, uma combinação virtuosa de gestão macroeconômica responsável com expansão das exportações e aumento do consumo doméstico, este decorrente da incorporação crescente de camadas da população na chamada "nova classe média". Tudo isso num contexto de estabilidade democrática. Economias como a do Brasil, do Chile, da Colômbia e do Peru, exportadores de commodities, têm apresentado um ótimo desempenho.
Esse ambiente favorável contribui para a expansão das empresas na região. De um lado, estimula a diversificação da produção e abre espaço para novos empreendimentos nos setores de serviços, como educação, saúde e turismo, por exemplo. De outro, as reformas econômicas e as privatizações ofereceram oportunidades para o crescimento do setor privado em atividades que eram exclusivas de empresas públicas. Fortaleceram, por exemplo, empresas privadas nos setores de mineração, construção pesada e telecomunicações.

Ademais, crescem as oportunidades para a expansão de negócios com controle acionário latino-americano e sede em seus países, mas com filiais em outros países, quer da região, quer extrarregionais. São as chamadas empresas multilatinas. Para defini-las e classificá-las, consideram-se suas operações no exterior, a cobertura geográfica das suas atividades e o seu potencial de crescimento internacional. De acordo com o ranking da América Economia, este ano existem 66 empresas multilatinas, das quais 27 são brasileiras.

As oportunidades para a expansão das empresas multilatinas crescem com o fortalecimento das economias da região e o aumento de sua participação relativa no total do produto mundial. As possibilidades de capitalização, de fusões e aquisições e do desenvolvimento de novos negócios estão diretamente relacionadas à estabilidade tanto econômica quanto política na região. E o futuro para essas empresas é bastante promissor.

Contudo, existem ameaças que podem frustrar essas oportunidades. A interrupção das reformas econômicas e dos programas de privatizações tem como consequência a precária situação da infraestrutura na região, uma restrição ao crescimento econômico. A ausência de boa integração regional nos setores de logística, telecomunicações e energia é outra restrição que dificulta a conquista do mercado latino-americano. Na área de mercados de capitais, há também necessidade de fortalecimento da integração intrarregional, permitindo maior captação de poupança para contribuir à capitalização das multilatinas. São ainda necessários esforços visando a compatibilizar marcos regulatórios que facilitem as relações comerciais e financeiras dentro da região. Finalmente, são necessários investimentos em pesquisa e desenvolvimento para contribuir para a expansão do registro de patentes latino-americanas. Enfim, inovação e excelência na gestão são fundamentais para o sucesso empresarial.

Parece-me que, com as empresas multilatinas, surge uma oportunidade de integração mais sólida e duradoura na América Latina do que têm sido as tentativas pouco eficazes de acordos comerciais ou de livre comércio. Os governos nacionais poderiam atuar de forma cooperativa para ajudar a consolidar um novo padrão de desenvolvimento comercial e empresarial na região.

Fonte: O Estado de São Paulo - 25/06/2011
Qual o Modelo de Cidade Futura?
Por Hugo Ferreira Braga Tadeu – Professor convidado da FDC
 
Como estamos estruturando as nossas cidades para o futuro? Qual a qualidade de vida que desejamos? Quais frutos do planejamento atual colheremos daqui a alguns anos? Teremos recursos suficientes para todos?

O crescimento econômico atual vem impondo um padrão de vida nunca antes observado por todos nós: ritmo de trabalho acelerado, ampla necessidade por conexão, demandas empresariais maiores, gente cada dia mais preparada e estruturas sociais antes não imaginadas. Mas qual o custo destas evoluções?

Pode-se perceber que as grandes cidades já apresentam limites para a boa convivência como resultado do seu crescimento desordenado. Os sistemas de transportes estão no limite da sua capacidade, a geração de energia está abaixo da demanda, os sistemas de comunicação (como internet, telefonia fixa e móvel) apresentam falhas recorrentes, a violência urbana é latente e as pessoas parecem andar constantemente estressadas.

Quem nunca teve problemas de atrasos em função dos engarrafamentos, aeroportos saturados ou trabalhos não-realizados devido à queda das redes de telecomunicação? Além destes fatores, não conseguimos solucionar os problemas de saneamento básico, o que é um risco absoluto para a saúde pública e crescimento das gerações mais carentes, não eliminando a questão da violência urbana da pauta de soluções.

Deve-se pensar no longo prazo e avaliar a história recente para entender que a limitação de recursos é latente, com sérios riscos estruturais, com possíveis rupturas em andamento. Mas qual seria a cidade do futuro ideal? Como não existe bola de cristal, deve-se pensar em planejamento e gestão em busca das melhores condições de vida e nível de serviço adequado para todos. A adoção de exemplos mundiais e dados estatísticos para planejamento são bem- vindos.
Dilemas reais

 

Por Paulo Paiva, professor da Fundação Dom Cabral

Economia trata da alocação de recursos em ambiente de escassez. É crucial fazer escolhas. Os instrumentos analíticos da disciplina oferecem indicação das consequências das escolhas e também de como se pode otimizar o bem-estar da população através das possíveis decisões. O tempo é uma dimensão importante a ser considerada. Enfim, a aparente conquista presente pode comprometer o bem-estar futuro. Quando olhamos o desempenho recente da economia brasileira deparamos, com bastante clareza, com os dilemas que o governo enfrenta.

Primeiro, a economia brasileira vai indo muito bem, com crescimento rápido, quase pleno emprego e alto grau de satisfação dos consumidores. O crescimento atual resulta, principalmente, do aumento da demanda, tanto das famílias quanto do governo. A expansão da demanda interna, associada ao aumento dos preços de commodities, provoca inflação. Esta, se não controlada, comprometerá o crescimento futuro e, certamente, reduzirá o poder de compra dos segmentos mais pobres da população, gerando desemprego, eliminando ganhos importantes de bem-estar e de distribuição de renda. O controle da inflação requer redução do consumo tanto do governo quanto das famílias. Se essa escolha não é feita voluntariamente, resta ao Banco Central elevar as taxas de juros a níveis bem mais elevados. Por exemplo, se o governo controlasse os seus gastos, gerando superávit primário maior, as taxas de juros poderiam estar em patamares mais baixos e/ou a inflação atingiria sua meta mais rapidamente.

Segundo, um dos resultados do bom desempenho da economia brasileira é a valorização do Real, acentuada pelas condições internacionais.  Com excesso de liquidez no mercado internacional e baixo risco no Brasil, o fluxo de dólar aumenta, depreciando o seu valor em relação ao Real. Taxas de juros relativamente mais altas atraem a entrada de capitais, contribuindo ainda mais para a depreciação do dólar.  A valorização do Real torna os produtos brasileiros relativamente mais caros no mercado externo, desestimulando a produção doméstica e, em contrapartida, estimulando as importações. Mas, em contrapartida, aumenta tanto a capacidade de compra dos consumidores brasileiros no exterior quanto o valor relativo dos salários dos trabalhadores brasileiros, se comparados com os dos países cuja moeda se desvaloriza. Ademais, a valorização do Real atua também como freio à aceleração inflacionária. Hipoteticamente, uma desvalorização rápida do Real causaria uma maior aceleração dos preços.

Por um lado, ficando o Real muito valorizado por um período longo de tempo, poderá haver impacto negativo na indústria brasileira, principalmente para pequenas e médias empresas. As maiores e estrategicamente mais bem preparadas poderão transferir sua base de produção para outros países. Por outro lado, não se atacando a inflação corretamente no curto prazo, poderá haver a volta de indexação cujas consequências todos conhecem: inflação ascendente, queda do poder aquisitivo dos salários e redução do crescimento e do emprego no médio prazo.

As escolhas não são fáceis. Para manter a sustentabilidade do crescimento econômico e o consumo das famílias, urge ação profunda de controle dos gastos públicos e da inflação. O Brasil irá viver com sua moeda valorizada enquanto estiver com sua economia estabilizada e em crescimento. Possíveis acertos na taxa de câmbio dependem, cada vez mais, das condições da economia internacional. Não podemos correr o risco de perder as duras conquistas da estabilidade econômica.

Fonte: Revista Viver Brasil, edição n. 57 - abril 2011

O desafio da eficiência para a gestão pública
 
Por: Marina Araújo - Pesquisadora do Núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral


O Brasil, cada vez mais, dedica esforços na busca por eficiência e eficácia na gestão dos recursos públicos. Mais do que destacar formas de otimizar receitas e despesas, é importante pensar na interação público-privada como meio de fomentar a competitividade do país.
 
É possível que o Estado incremente, de forma considerável, a sua atuação frente à experiência do setor privado no que tange à gestão. Porém, quando pensamos que cabe ao Estado sustentar e desenvolver as condições competitivas de um país, eficiência na gestão de recursos não é suficiente para garantir a geração de renda, emprego e inserção internacional dos bens produzidos. Pensar em eficiência, para objetivos de longo prazo, envolve um Estado que crie condições para que empresas e sociedade produzam cada vez mais e melhor.
 

Essa ótica da eficiência pode ser entendida como a intervenção do Estado em prol da formação e manutenção das condições competitivas para empresas, que englobe legislação adequada, marco regulatório eficiente ou, então, políticas fiscais que garantam o funcionamento do Estado sem restringir o funcionamento das empresas.

O papel do Estado é prover condições macroeconômicas, sociais e de regulação de modo a minimizar os riscos à atividade econômica. Além disso, o governo deve oferecer à sociedade certa flexibilidade de suas políticas econômicas, de modo a sustentar a economia frente às mudanças do ambiente internacional.

Quando trabalhamos essa perspectiva de eficiência, o desempenho brasileiro deixa a desejar. Segundo dados do World Competitiveness Yearbook de 2011, realizado pelo International Institute for Management Development (IMD), no quesito eficiência do governo, o Brasil ocupa a 55ª posição entre as 59 economias analisadas.

Outro dado preocupante é a discrepância apresentada entre as eficiências do Estado e das empresas privadas. Quando comparadas, observa-se uma diferença de 26 posições entre elas, já que a eficiência das empresas ocupa o 29ª lugar no estudo.

Esse dado mostra que a baixa eficiência do Estado brasileiro pode impedir que o setor privado alcance a sua máxima eficiência competitiva, restringindo a sua capacidade de geração de lucro e renda, de emprego e de inserção nos mercados internacionais.

Os efeitos desse mau desempenho podem ser visualizados na perda de seis posições apresentados pelo Brasil no ranking geral do estudo, que passou a ocupar o 44º lugar esse ano.

Trabalhar essa nova perspectiva da eficiência dos governos traz ao país o desafio de agir pensando tanto no curto prazo, como já vem sendo feito com iniciativas de eficiência na gestão dos recursos públicos, quanto no longo prazo, com as reformas tributárias, trabalhistas e legislativas que, como demonstram dados do estudo, são fatores impeditivos para o desenvolvimento econômico e competitivo do Brasil.

Na realidade, o grande desafio está em romper as barreiras institucionais que impedem que essas reformas aconteçam de fato. Para incrementar o desempenho competitivo do país, é necessário mais que tornar eficiente a gestão dos recursos públicos. O governo precisa ir além e promover as tão demandadas reformas — só assim poderemos recuperar posições na corrida pela competitividade.
 
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