No último ano, conforme dados do Banco Central, o Brasil apresentou um déficit de US$ 52,6 bilhões em seu balanço de transações correntes. Este déficit recorde no país ocorreu apesar do superávit de US$ 58,6 bilhões no balanço de pagamentos em 2011, e de um saldo de US$ 29,8 bilhões na balança comercial do mesmo ano. Uma vez que a conta de transações correntes é a soma da balança comercial e da balança de serviços e rendas – apesar do saldo comercial do país ter sido muito favorável – tem-se como resultado que o saldo de serviços e rendas foi desfavorável e significativo (US$ 85 bilhões).
Ainda segundo o BACEN, a tendência para 2012 é de piora nesse cenário. No acumulado do ano de janeiro a maio, o déficit em conta corrente foi de US$ 20,958 bilhões, o equivalente a 2,19% do PIB. Parte desse resultado deve-se à remessa de lucros e dividendos realizada por empresas multinacionais instaladas no Brasil, que somou US$ 2,420 bilhões em abril (ante US$ 2,1 bilhões remetidos em abril de 2011). O resultado de maio, segundo o BACEN, foi menos deficitário do que o de abril, quando o saldo ficou negativo em US$ 5,403 bilhões. No acumulado dos últimos 12 meses até maio, o saldo em conta corrente é negativo em US$ 50,881 bilhões, o que representa 2,11% do PIB.
Para galgar posições na variável comércio internacional, o Brasil necessita aumentar suas exportações, não apenas de commodities, mas também de produtos de maior valor agregado. Para tanto, necessita inovar com aumento da oferta de produtos e serviços com diferenciais competitivos sustentáveis (diferenciação na oferta de soluções a custos compatíveis com o interesse do mercado). Na prática, o que se observa é o oposto, com a redução no volume de recursos investidos em PD&I como aponta a ANPEI em seu relatório anual. Pesquisas de opinião realizadas pela equipe da FDC indicam que 80% dos investimentos em inovação em grandes empresas são voltados para atividades de melhoria, com apenas 9% das empresas tendo projetos de inovação com o objetivo de fazer uma oferta de soluções diferenciadas para o mercado internacional.
Para tornar-se um player global, as empresas do país precisam também mudar de patamar de produtividade. Os relatórios demonstram que o crescimento da produtividade no Brasil é insuficiente para alcançar as posições competitivas dos países mais globais. A variável medida pela produtividade do trabalho (relação crescimento do PIB força de trabalho) ficou estagnada na 52ª posição no relatório tendo, em 2011, caído 24 posições. Quando analisado o comportamento do indicador de crescimento real da produtividade total, verifica-se um ligeiro aumento entre os dois últimos anos. Em 2010, essa variável fechou em -0,96% (em relação ao PIB) e no ano de 2011 a taxa de crescimento foi de 0,62%. Ainda assim, esse valor é muito aquém do ideal quando comparado à taxa de crescimento médio da produtividade das demais economias mundiais, que foi de 2,06%. A produtividade do trabalho em paridade do poder de compra (indicador que elimina a diferença entre o custo de vida nos países) indica que o trabalhador brasileiro produz, em média, o equivalente a US$ 12,56 por hora trabalhada, enquanto a média mundial é de US$ 31,84 por hora trabalhada.
Um fator importantíssimo para um país ser um global player é ter mão de obra qualificada o suficiente para tal. Entretanto, em seu momento atual, o Brasil gera empregos, mas não riqueza (a taxa de crescimento do emprego saiu do nível de 0,3% entre os anos de 2009/2010 para o nível de 2,1% entre os anos de 2010/2011. Estão sen¬do criados empregos que exigem menor qualificação do trabalhador, em setores que agregam pouco valor à economia, o que acaba reduzindo a produtividade. Ou seja, apesar dos óbvios benefícios econômicos e sociais que acompanham a positiva geração de postos de trabalhos, estes não estão sendo adequados para a reestruturação e crescimento do setor produtivo brasil¬eiro.
Uma amostra de como o Brasil não está inovando o suficiente para tanto, é uma pesquisa recente feita pela FDC com cerca de 220 gestores. Seus resultados mostraram que aproximadamente 80% deles estão investindo em inovação para atender ao seu cliente, o que é uma medida de curto prazo. Apenas 9% estavam aplicando recursos no desenvolvimento de novos produtos.
É necessário o desenvolvimento de uma “ação de país” que associe os setores público e privado para investir no aumento da produtividade dos investimentos em inovação e no reposicionamento da competitividade brasileira. O Brasil continua em evidência aos olhos do mundo mas, ao mesmo tempo, está perdendo grandes oportunidades de se reposicionar globalmente. Sem o desenvolvimento de uma nova agenda de trabalhos, as más notícias serão recorrentes e o país não conseguirá avançar para deixar de ser um (belo) país em desenvolvimento.