Fundação Dom Cabral

 

 
Novembro 04
Qual a língua da Responsabilidade Social Corporativa?

Mônica P. Árabe​

Muito tem se falado em Responsabilidade Social Corporativa (RSC), que este tornou-se um tema relevante para qualquer planejamento estratégico que vise ao sucesso no longo prazo. Executivos buscam compreender o que se fala sobre RSC para poderem transpor o conteúdo para a prática, mas será que não apenas “o que”, mas o “como” ​​se fal​​a também é relevante para a RSC? Liang, Marquis, Renneboog e Li Sun (2014) mostraram que sim.​

Diversos estudos na área de linguística e economia já mostraram que a língua falada é um dos fatores mais importantes que moldam a cultura e criam diferenças entre os países. Uma diferença crucial entre os idiomas é o fato de a gramática requerer, ou não, a diferenciação verbal entre eventos futuros e eventos presentes. Línguas como o alemão e o francês não exigem essa diferenciação, a qual é essencial para o português e o inglês, por exemplo. Pesquisas em linguística mostraram que a diferenciação gramatical entre o presente e o futuro leva o interlocutor a perceber o futuro como mais distante, reduzindo a importância psicológica, e consequentemente, a preocupação, com o futuro em si. Diante desses fatos, Liang et al. (2014) desenvolveram um estudo visando investigar se padrões da linguagem utilizada por lideranças corporativas moldam as decisões de longo prazo da empresa. Mais especificamente, Liang et al. se questionaram se as diferenças de compromisso assumido com a RSC por empresas de diferentes nacionalidades são originadas de diferenças nas características dos idiomas falados. Esses autores levantaram a hipótese de que empresas que têm como língua oficial um idioma em que a gramática exige a diferenciação entre o futuro e o presente são menos orientadas para o longo prazo e, portanto, têm um desempenho pior em termos de RSC, se comparadas com empresas cujo idioma oficial possui uma gramática cuja diferenciação entre o presente e o futuro não é forte.

Com base em uma amostra composta por milhares de empresas de 59 países, analisadas no período de 1999 a 2011, a hipótese mostrou-se verdadeira. Os resultados encontrados foram:

1. Empresas cuja língua oficial separa gramaticalmente o presente do futuro apresentaram um desempenho pior em RSC do que empresas cujo idioma oficial não exige essa diferenciação.

2. A correlação negativa entre o desempenho em RSC e idiomas que exigem a separação gramatical entre presente e futuro:

a) É reduzida pela metade em empresas cuja matriz se localiza em um país com alto grau de globalização.

b) É reduzida mais do que a metade em empresas com um alto grau de internacionalização.

3. As experiências profissionais internacionais do CEO desempenham um papel significativo na atenuação da influência do idioma no desempenho de RSC, mas essa atenuação ocorre, principalmente, devido às experiências educacionais internacionais tidas pelo CEO. Isso significa que o mindset global em estratégias sustentáveis e as habilidades multilíngues são mais prováveis de terem sido adquiridas pelo CEO durante a experiência educacional do que a profissional.

Diante desses resultados, os autores concluem que a internacionalização da empresa e de seus líderes reduziria a correlação negativa encontrada na pesquisa, uma vez que esses ganham experiência em uma maior variedade de idiomas. 

O estudo de Liang et al. (2014) desperta a atenção para a importância da internacionalização das empresas no contexto da RSC, ao comprovar a contribuição desse processo para o aumento da conscientização sobre questões de longo prazo. Empresas brasileiras que visam transpor essa dificuldade imposta pela língua portuguesa, podem tomar as seguintes medidas:

  • Investir na internacionalização de líderes, incentivando e, se possível, financiando, cursos de desenvolvimento no exterior.
  • Investir na internacionalização de líderes, incentivando e, se possível, financiando, o aprendizado de um novo idioma.
  • Valorizar candidatos que apresentem experiência internacional durante a análise de currículos para cargos de liderança. 

Assim, pessoas com um maior conhecimento de características de outras culturas se mobilizariam mais veemente frente às questões de longo prazo, contribuindo para a transposição de uma forte barreira à incorporação da sustentabilidade na empresa.​
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